Expressões e Vícios Igrejeiros

É interessante notar como, com o tempo, certas expressões de linguagem e “vícios” de comportamento acabam sendo incorporados e cristalizados no meio religioso (no que diz respeito às expressões, isso é até normal, em qualquer língua falada). A lista abaixo é apenas uma sugestão para ajudar especialmente os líderes e comunicadores das igrejas a aprimorar o trabalho que desempenham e que é muito importante para Deus e para a comunidade:

1. “Vamos cantar o hino ....... para a entrada da plataforma.” A plataforma, sobre a qual ficam o púlpito e as cadeiras do pregador e dos oficiantes, nunca entra, a menos que tenha rodinhas e seja móvel. A plataforma sempre está lá. Quem entra são os oficiantes do culto ou componentes da plataforma. Alguns podem alegar que em “entrada da plataforma” há elipse e metonímia. Correto. Outros podem argumentar que o uso consagrou a expressão, apesar da incorreção. Igualmente correto. Então, para evitar maiores discussões, poderíamos simplesmente cantar para que entrem os oficiantes que compõem a plataforma, sem precisar chamá-los. Que tal?

2. Já que mencionamos a música, é bom lembrar que o ideal é anunciar os hinos pelo nome e depois informar o número deles. Assim, fica melhor: “Vamos cantar o hino ‘Jubilosos Te adoramos’, nº 14.” E nada de dizer “Vamos cantar o hino três, quatro, dois.” O correto é “trezentos e quarenta e dois”.

3. “Senhor, abençoa os que não puderam vir por motivo justo.” Esse tipo de súplica é comum em cultos de oração (às quartas-feiras), quando geralmente há menos pessoas na igreja. Infelizmente, é um tipo de oração legalista que procura excluir das bênçãos de Deus certas pessoas. Se alguém deixou de ir à igreja por “motivo injusto”, aí, sim, é que devemos orar por essa pessoa. O melhor mesmo é ser inclusivo e orar: “Senhor, abençoa aqueles que não puderam vir. Que Teu Espírito esteja com eles neste momento.” Outro detalhe: tem gente que parece ter fixação pelos que não vieram à igreja. O dirigente começa a reunião e já dispara: “Apesar de termos muitos bancos vazios...” ou “Mesmo sendo poucos...” Vamos valorizar os que estão presentes. Pra que ficar falando toda hora de quem não veio? Nenhum apresentador de TV fala sobre os que não estão assistindo ao seu programa... Quem não veio que ore em casa por si mesmo e vá à reunião seguinte, se for possível.

4. “Aqueles que puderem, vamos nos ajoelhar para orar.” Essa também já virou “vício”. É evidente que somente se ajoelharão aqueles que puderem. E os que não puderem por certo serão tão poucos que nem é preciso mencionar. Essa frase é dispensável.

5. Às vezes, quando alguém vai apresentar os oficiantes do culto, na plataforma, diz algo do tipo: “À minha direita, à esquerda dos irmãos...” Isso é quase como chamar a congregação de espacialmente desorientada. Que tal simplesmente dizer: “À direita do pregador...”, ou algo assim?

6. “Senhor, que Tuas bênçãos venham de encontro às nossas necessidades.” Tenho certeza de que quem ora dessa maneira não quer esbarrar nas bênçãos de Deus nem ser atingido por elas. Vir de encontro é se chocar contra. O correto, então, é pedir que as bênçãos de Deus venham ao encontro das nossas necessidades, ou seja, estejam de acordo com o que precisamos.

7. “Viemos aqui para celebrar...” Viemos é pretérito perfeito de “vir”. Talvez o mais adequado seja dizer “vimos”, presente do indicativo de “vir”. Mas dizer “Vimos aqui” fica muito formal, não é? Então, que tal mudar para algo do tipo: “Estamos aqui para celebrar...”? Na dúvida, saia pela tangente e busque sempre a maneira mais simples (porém correta) de falar.

8. “Senhor, abençoa esta semana que para nós é desconhecida”; “Não temos mérito algum, mas confiamos nos méritos do Teu filho Jesus Cristo”; etc. Não há nada de gramaticalmente errado nessas frases, mas será que quem as usa está pensando no que diz? Aqui quero chamar atenção para as “frases feitas” que povoam nossas orações. Oração, como bem definiu Ellen White, é abrir o coração a Deus como se faz com um amigo. Portanto, as orações, mesmo as feitas em público, deveriam ser dirigidas a Deus com palavras simples e sem modismos ou tradicionalismos ditos automaticamente.

9. “Quando a porta da graça for fechada”; “Depois do tempo da sacudidura”; “O povo remanescente da profecia”; “A pena inspirada registra que...”; “O povo laodiceano”; “Segunda hora”; “Vamos para o lava-pés”; “O departamento de Mordomia”, “Fazer o pôr do sol” (não precisa fazer, ele é automático!); “Devolução do pacto”; etc. Novamente, nada há de errado com essas frases e expressões. Mas imagine que você não é adventista ou não é cristão e está visitando uma igreja adventista pela primeira vez. Como interpretaria essas expressões? Entenderia alguma coisa? Portanto, os pregadores devem tanto quanto possível evitar o “adventistês”. Se tiverem que usar termos do jargão adventista, o melhor é explicá-los em seguida. Nossa mensagem tem que ser clara, simples e universal.

10. Devemos evitar também termos denominacionais que se referem à estrutura da igreja e que não têm muito sentido para quem não os conhece. Imagine a cena: alguém anuncia que naquela manhã de sábado falarão o pastor da União e o pastor da Divisão. Alguém pode pensar que um é bom, pois promove a união, e o outro é mau. Assim, o ideal é explicar os termos ou simplesmente dizer: “Hoje falarão o pastor fulano, diretor de Educação da Igreja no Estado de São Paulo, e o pastor cicrano, líder de Jovens para a América do Sul.” Por que “diretor” e “líder”? Porque é mais claro que “departamental”.

11. Que tal promover o culto jovem? Nos dois sentidos: promover a frequência ao culto e o nome dele desse jeito. “Culto JA” não tem sentido (no meu Estado de origem, JA é Jornal do Almoço). E “programa dos jovens” soa ainda pior. Culto jovem é mais bonito.

12. As pessoas oram, cantam alguns hinos e depois o dirigente diz: “Para começarmos o culto, cantemos o hino .......” A oração e os hinos anteriores não eram parte do culto? Eram o quê, então?

13. Outro “vício” envolve a palavra “possa” (e suas variantes) e até lança dúvida sobre o poder de Deus. Quer um exemplo? “Senhor, que Tu possas nos perdoar os pecados. Que Tu possas conceder a cura ao irmão fulano e que nós possamos ser fieis a Ti.” Além de ficar sonoramente feio, quando repetido, o “possa” aplicado a Deus relativiza o poder dEle. É claro que Deus pode! Talvez Ele não queira algumas coisas, mas que pode, pode. Assim, melhor seria orar: “Senhor, perdoa nossos pecados. Se Tu quiseres, cura o irmão fulano e ajuda-nos a ser fieis a Ti.”

14. Imperativos são outro problema. Errado: “Senhor, cure”, “Senhor, ouça”, “Senhor, atenda”, “Senhor, faça”. Correto: “Senhor, cura”, “Senhor, ouve”, “Senhor, atende”, “Senhor, faze”. Ok, essa é um pouco mais complicada, mas, com o tempo, um pouco de estudo e atenção, é possível orar direitinho sem perder a espontaneidade. Devemos sempre oferecer o melhor a Deus, inclusive nosso melhor português possível.

15. Como mais ninguém (a não ser os mais antigos e alguns preciosistas) usa a palavra “genuflexos”, basta dizer “ajoelhados”. Sim, porque “de joelhos” (desde que tenhamos pernas completas) sempre estaremos, mesmo quando ajoelhados. O mesmo vale para “de pé”. O certo é “em pé”. (Porém, fica aqui o registro de que o Dicionário Houaiss já aceita a expressão “de joelhos”.)

16. Devemos evitar o abusivo da palavra “alma”. Exemplos: “Foram batizadas mais de quinhentas almas”; “Sair para a conquista de almas”; “Ganhador de almas”; etc. Para os que entendem “alma” como uma entidade separada do corpo e que sai dele quando a pessoa morre, falar em “conquista de almas” talvez possa configurar a intenção de proceder a essa separação, ou seja, praticar assassinato! Melhor substituir a palavra “alma” por “pessoa”, que é exatamente o sentido bíblico.

17. Para encerrar esta lista (mas não o assunto e a preocupação que ele levanta), não poderíamos deixar de fora expressões exclusivistas, como, por exemplo, “não adventistas”. Você conhece alguém que gosta de ser chamado “não”? “Apresento-lhes este meu não parente.” Horrível, né? Então, evitemos termos que dão a impressão de que somos um clube fechado, exclusivo. Nada de “não adventista”, “mundanos”, etc. Podemos nos referir a “amigos visitantes”, “irmãos evangélicos”, etc. É mais simpático.

Resumindo: temos que descomplicar nossa linguagem e liturgia a fim de que não criemos barreiras para a compreensão da mensagem que é simples e clara: Deus nos ama e quer nos salvar.

Fonte: http://www.criacionismo.com.br/2011/01/expressoes-e-vicios-igrejeiros.html

Autorizado a publicação por:

MICHELSON BORGES
É jornalista e mestre em Teologia. Membro da Sociedade Criacionista Brasileira . É editor na Casa Publicadora Brasileira e autor dos livros /A História da Vida / e /Por Que Creio / (sobre criacionismo), /Nos Bastidores da Mídia / e da Série Grandes Impérios e Civilizações, composta de seis volumes. Casado com Débora Tatiane, tem duas filhas.
Editor do Blog Criacionismo

23 comentários:

Adorei as dicas. Gostei da parte em que devemos dar para Deus o nosso melhor, incluindo falar e escrever o portugues.

Destas o mais famoso é o "de joelhos", eu até me assusto quando alguem fala "ajoelhados"!
Belo post e muito obrigado pelas belas palavras.

Apreciei as dicas. Conversarei com os anciões de minha igreja e distrito, pois são equívocos muito comuns e feios. Parabéns!

Cara, adorei, foi até muito divertido.

Vou fazer uma divertida orientação no JA, ou seja no culto jovem. Tenho todos os seus materiais e palestras. Te admiro e que deus possa, ou seja Senhor abençoe mais e mais nosso irmão Borges.

Abraços, querido irmão.

é verdade as vez utilizamos frases que para muitos é desconhecida,principalmente as visitas ou utilizamos frases incorretas,mas obrigada a vocês que atraves deste blog vem nos informar da importancia de nós adventistas de termos uma boa comunicação para podemos levar a mensagem de Cristo ao mundo.
Ivoni Monteiro-Diretora de Comunicação da IASD Zerão-mACAPÁ-AP

Sempre falei essas expressãoes e palavras sem me atinar para o real sentido do que estava dizendo...Aprendi assim e assim falava e ponto!
Mas na vida temos também que desaprender o que não aprendemos direito e correto, é exatamente isso que estou fazendo...
Muito, muito bom esses conselhos...
Que DEUS ilumine-nos smpre!

Por acaso existe Igreja Adventista do oitavo dia e etc...? Por que não dizer somente "Igreja Adventista"

Esse é o nome da igreja. Não é uma simples menção a guarda do sétimo dia. Mas para o seu conhecimento, existe algumas ramificações como Adventistas da Promessa, Reforma e etc. Por essa razão, usar o nome completo fica mais fácil diferenciar uma de outra. Um abraço

sensacional artigo...quantos vícios.

Muito bom,eu até um pouco + bom demais.

Dicas importantíssimas. o povo de Deus deve ser a cabeça e não a cauda e isto inclui o uso correcto/correto da língua. Parabéns e muito obrigada Tentarei fazer uma exposição sobre esse assunto na minha igreja.
Adelsa de Cabo Verde - África

Olá, adorei o post.
Vamos preparar um J.A. sobre este assunto em nossa igreja.
Vocês tem como me encaminhar aquela história lida no ultimo eroi no Campo Limpo sobre este assunto? em que um amigo visitou uma igreja adventista e foi contar para seu amigo adventista como foi o culto....
meu e-mail: licecoelho@hotmail.com

Desde já agradeço e que Deus os abençoe!

FANTÁSTICO! Parabéns pelo artigo!

Gostei do artigo, entretanto podemos acrescentar outa expressão "fiquemos em pé" na hora de convocar para o canto em´pé, não fica bem já que o anunciante já esta em pé, ficaria melhor "ficai em pé" já que se refere apenas a congregação.

Poxa eu sempre reparo muito nessas coisas, ja tentei muitas vzs dar orientações como essas na igreja a qual frequento, mas acabam dizendo q sou muito "perfeicionista" e por ser tmb jovem ñ dão muito crédito, mas achei muito bom esse artigo e gostaria de acrescentar uma expressão errada e muito usada tmb q é:
"DE PÉ" vamos cantar o hino... Se formos pessoas fisicamente perfeitas sempre estaremos "de pé" ou seja, com eles no corpo, o certo seria:
-"EM PÉ" vamos cantar o hino...
No mais parabéns pela postagem irá ajudar muita gente a melhorar a liturgia!!
abçs e paz a tds!

Gostaria de complementar a esta lista o erro crasso que vejo em alguns Adventistas aqui no norte, Nada contra o nortista, pois sou de também; "falemos de joelhos". Bem é claro que em uma oração não vamos falar de nossos joelhos com Deus, a não ser que seja para pedir um cura de algum machucado grave... Porém entendemos que essa forma errada de se expressar deva ser corrigida com o passar do tempo. abraço a todos...

Há exageros e preciosismos nesse artigo. Concordo com boa parte, mas já vi pessoas agradecendo pelo "quem pode ficar de joelhos" há pessoas que não podem e elas se sentem desconfortáveis ao ficarem de pé, com a licença, se sentirão bem.
JA é a sigla denominacional para Jovens Adventistas. Pouco provável que alguém ache que haverá um culto do Jornal do Almoço.
As pessoas que estão na igreja de fato vieram, pretérito perfeito, adorar a Deus.

Gostei muito das dicas.
Agora não entendo por que o culto dos sábados à tarde são dedicados a JA, acho que os anciões se sentem de fora, seria interessante dizer que é um culto para termos renovação, para nos sentirmos jovens sem importar-se com a idade!

Olá, É bom comentarmos este assunto e é claro é sempre bom fazermos o melhor para nosso Deus, mas não podemos levar ao exagero, por pior que seja o modo de falar de uma pessoa ao orar, acredito que DEUS não esta observando o jeito que ela fala, mas é claro que ao orar não e bom ficar com repetições (MAT 6:7), temos muitas pessoas que sequer tem estudo em nossas igrejas será que não podemos convidar estas pessoas para orar ou fazer outra coisa?

Achei muito bacana o post. Algumas coisas realmente merecem uma ressalva, mais temos que deixar de ser mecânicos com as coisas de Deus e também deixar de sermos complexos nas mesmas. Algumas pessoas passam a impressão de que o Deus que andava com Enoque muitas vezes não é o Deus que anda com elas no dia a dia, sofrem tanto para falar com Ele e medem tantas palavras que chegam a serem robóticas no falar e sem sentimento algum.
Falamos que Deus é nosso amigo. Mas como você conversa com o seu amigo? Você fica pensando no que falar, “poxa se eu errar aqui meu amigo não vai me atender."
Você diz que Deus é o seu pai, mais como você fala com o seu pai? - Pai, venho até aqui para que possas atender um filho seu e que, por favor, auxilie um pobre coitado que não merece, mais tu ó pai que tens ricas bênçãos". Será que é assim que você fala com o seu pai no dia a dia?
Isto não é uma crítica mais que possamos pensar na forma que vamos falar com Deus, com respeito SIM! Porém com o coração aberto !

Gostei da ideia de comentar essas expressões, algumas das quais até folclóricas, com as quais eu mesmo me incomodo. Mas gostaria de acrescentar a essa lista o abuso, nas orações e cânticos, do sotaque sulista por pessoas de regiões diferentes, que não o usam no dia a dia. Por exemplo: "DÊ TI" (Senhor, preciso DÊ TI; queremos falar DÊ TI para as outras pessoas etc.) ao invés de dizerem "DE TI" (foneticamente, "DI TI". Também tenho observado problemas com o gerúndio, que foi herdado dos atendentes de telemarketing: "VAMOS ESTAR FAZENDO..." VAMOS ESTAR PEDINDO" etc. Há casos de outros problemas na conjugação de verbos: "VAMOS ORARMOS", quando o correto é: "VAMOS ORAR" ou dizem: "VAMOS NOS AJOELHARMOS", "VAMOS CANTARMOS" etc.
Concordo com a opinião de que devemos nos achegar a Deus com o coração aberto, não necessitando inventar ou enfeitar. Mas na nossa comunicação temos que levar em conta que somos embaixadores e representamos o REI DO UNIVERSO! Necessitamos oferecer o Deus o nosso melhor e representá-lo à altura. E acabar com a ideia que muitos que não nos conhecem, de que "crente é tudo analfabeto". A Bíblia diz que devemos ser cabeça e não cauda.
Abraço a todos. MARANATA!

Marcelo Pereira dos Santos
Igreja Central de Serrinha - Bahia

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